29 de ago de 2011

o que transborda pelos olhos

´      

     Doce.
     Era a primeira palavra que vinha na cabeça ao se lembrar dela. Ela era doce. Em todos os sentidos.
    Seu sorriso, o brilho dos seus olhos, o som da voz, as palavras, o perfume. Secretamente, até suas lágrimas eram doces. O que fazia questionar-se: O que havia dentro dela que a fazia ser assim? Que ingrediente era esse? Chorar não é nada doce. Chorar é uma dor amarga que dá nó na garganta, que aperta o peito com força. Como ela faz pra enxergar isso com doçura?
     Até seu drama mexicano era bonito.
     Era doce.
     E se a perguntasse o motivo disso: Qual é o segredo? Ela só ria. Ria um riso contido, desviava o olhar e silenciosamente respondia em pensamento: “É amor demais! Em excesso.” Amor que transbordava em doçura. Por todos os lados.
     Essa noite ela chorava. Chorava um choro abafado pelo travesseiro. Como sempre, mordia os lábios pra segurar os soluços, mas como nunca, sentiu um gosto diferente. Seus lábios, molhados pelas lágrimas que escorriam tinha um gosto salgado, de lágrimas normais. Não era mais aquele doce que acalmava a alma. Dessa vez trazia uma sensação amarga no peito, um gosto azedo de desapontamento. Não era mais aquele gosto que a fazia lembrar de coisas boas e querer deixar a tristeza de lado. Era um choro salgado que fazia a dor tomar de conta do seu coração.
     O doce dentro dela perdeu a razão, o motivo de existir.  Essa conclusão a fez querer chorar ainda mais.
     Agora ela era apenas uma garota qualquer, chorando um choro comum. Um choro que parecia não ter fim.
     O que era doce se acabou.

23 de ago de 2011

sobre rosas e príncipes

     Parando pra pensar, me comparo um pouco com a rosa de O Pequeno Príncipe. Hora vaidosa, hora orgulhosa, hora dramática. E por vezes, tudo isso junto. Assim, cheia de vontades e contradições, mas acima de tudo, ingênua. Isso era o que prevalecia nela - e em mim. A rosa deixou o Príncipe ir embora afirmando que ia ficar bem, mesmo sozinha, mesmo quando ela não tinha ideia do que fazer, mesmo sabendo que seu planeta ficaria solitário sem ele. Ela afirmou ser forte, querendo convencer mais a si mesma que ao próprio príncipe. E foi corajosa ao deixá-lo partir. E ele foi.
      O príncipe não aguentava mais os caprichos da rosa, então resolveu sair em sua jornada pelo espaço, procurando coisas, lugares e pessoas novas. O que ele não sabia é que ela esperava. Esperava pelo seu retorno algum dia, esperava que de alguma maneira ele tivesse enxergado, enquanto estava fora, que ela era especial, que era dele, mas que precisava que ele lutasse por ela, esperava que ele percebesse que ela merecia e necessitava de muito mais do que cuidados contra o vento forte e contra as larvas que podiam prejudicar suas pétalas.
     Depois de tanto comparar, notei que os meus sentimentos se misturaram com os daquela rosa que só queria atenção. Só queria ser única no mundo, mesmo que existissem milhares de rosas iguais pelo universo. 
     Fico me perguntando se alguém garante que a rosa estava lá quando o principezinho voltou para encontrá-la. Havia passado tanto tempo, e ela ficou sozinha, apenas com seus quatro espinhos. Será que ela suportou o vento forte, as larvas e o baobás? Será que, quando o principezinho voltou, ainda existia algum vestígio dela? Pobre rosa. Era impossível sobreviver sozinha. Ela era efêmera, podia desaparecer com o tempo. E como a rosa, meu sentimento também é efêmero. Se não cuidar para mantê-lo vivo, um dia ele morre.

18 de ago de 2011

é ter na mente


     Como eu posso falar da nossa amizade sem me tornar repetitiva? Como eu posso te dizer o quanto você é importante pra mim, independente de tudo, usando palavras que eu ainda não usei? Nunca existiu ninguém que me conhecesse tão bem quanto você. Não é mesmo? Nos tempos do colégio, bastava eu botar o pé na sala de aula, com os olhos um pouco inchados - que podia parecer apenas uma cara de sono – que você já vinha atrás de mim com um: “O que foi que aconteceu? Você passou a noite chorando não foi?”. Você sempre acertava.
     Porém, de uns tempos pra cá as coisas mudaram. Mudaram muito. Mas eu quero que você saiba que, mudando do jeito que for, eu sempre vou estar aqui por você. De uma forma ou de outra. 
     Quando a gente se encontra, eu sempre tenho a sensação de que nossa amizade ainda é a mesma. Porque a intimidade, nossa ligação, ou seja lá como isso se chama, nunca mudou. Você também sente isso? Porque eu acho que é isso que importa. Então tudo o que eu desejo é que aquela conectividade que faz a gente olhar e ver estampado na testa um “eu não estou bem”, mesmo que tentemos esconder, não perca o sinal. Que aquela sensação confortável de confiança não fique esquecida, eu ainda sinto ela presente quando a gente se encontra, ainda me sinto segura em confiar meus segredos a você, em contar minhas confusões.
    Eu sei que é fácil falar isso. Difícil é manter a palavra. Difícil é alterar a ordem natural das coisas. E o natural é que as coisas mudam. E a seleção natural diz que sobrevivem os mais fortes. Então, que nossa amizade ainda seja forte o suficiente pra sobreviver às mudanças. As várias outras mudanças que ainda estão por vir.
     Eu mudei, você mudou, nossa amizade mudou. Eu ainda vou mudar, você vai mudar, nossa amizade também. Mas que ela seja forte o suficiente pra não virar pó com o passar do tempo, que ela seja madura o suficiente pra não se perder no caminho, que ela signifique tanto pra você, quando significa pra mim.
     E como já dizia Antoine de Saint Exupéry, “tu te tornas ETERNAMENTE responsável por aquilo que cativas.”
      Você me cativou. Você é eternamente responsável por mim. Aprenda a conviver com isso.