15 de mai de 2011

dia-a-dia


          Era cedo, mas o trânsito na rua já era intenso àquela hora. Na calçada, ela andava feliz. Era de se estranhar seu bom humor tão cedo da manhã, parecia que tentava segurar e guardar pra mais tarde o sorriso que queria se formar.
          Ela caminhava devagar, como quem não devesse nada a ninguém, como se nada a preocupasse, como se não tivesse ninguém esperando por ela. Em sua cabeça passavam milhares de cenas que nunca aconteceram, diálogos que nunca existiram, sensações que estavam perdidas dentro dela, loucas para encontrarem um lugar por onde pudessem escapar.
          A cada lembrança do que nunca existiu, a cada filminho que era criado dentro de sua cabeça, mais intensa era a força do riso que ainda lutava pra sair. Era como se ela se alimentasse daquelas ilusões, era como se aquelas histórias contidas em sua memória já fossem motivo bastante pra ela existir. Porque era como se a força dos sentimentos que surgiam com isso, pudessem fazer com que eles se realizassem um dia.
          Distraída, pronunciou baixinho uma das conversas que iam sendo formadas na sua mente. Fazia aquilo quase sem perceber, e para quem via de fora era como se falasse sozinha. Quando percebeu aquilo calou-se imediatamente e se conteve, como quem tivesse sido pega de surpresa e olhou ao redor para ver se alguém havia visto aquilo. Ela dava tanta importância a opinião alheia, se importava tanto com o que pensavam dela... Mas então ela sorriu, como quem ri de si mesma, achando aquilo hilário.
          Enquanto automaticamente seus pés se posicionavam um na frente do outro, como se brigassem pra ver quem chegava primeiro, ela desistiu de segurar o sorriso. Mal sabia ela que aquela alegria causava mais indagações do que o fato de falar sozinha. Porque falar sozinho, todo o mundo fala, quero ver é abrir um sorriso sincero todos os dias, logo cedo da manhã, como se desejasse um bom dia a tudo e a todos.
          Quem a notasse certamente iria ficar curioso com o motivo da felicidade dela. Foi uma boa noite de sono? Um amor recém resolvido? Uma nova proposta de emprego?
          Nem ela sabia.

3 de mai de 2011

#Dia30 - Quem é você?

          Existem duas de mim: quem eu sou e quem eu quero ser.
          Sou também em partes: tem a pequena parte racional; a parte emocional, que ocupa um grande espaço; a parte que eu mostro às pessoas; a que sou só pra mim; a parte que fica no meu travesseiro quando levanto; a que canta no chuveiro quando não tem ninguém em casa; a parte narcisista, que se esconde pelos cantos; a parte dramática que combina direitinho com uma protagonista de novela mexicana; a parte altruísta e predominante; a parte masoquista; a parte confusa, indecisa, ciumenta; a parte forte, que faz um esforço danado pra ser, de fato, assim.
          Eu sou uma série de coisas, sou uma grande confusão, sou um conjunto de defeitos, de sonhos, desejos, vontades, sentimentos, manias, vícios, amores e ilusões.
          Sou pela metade, e, ainda assim, inteira. Como um grande paradoxo, uma bela confusão. Sou uma parte da cada vez, hora ou outra quero ser tudo de uma vez só. E digo mais, se você enfrentar tudo isso, és uma pessoa de sorte.